sexta-feira, 19 de junho de 2015

Novidade

Entre a lucidez que eu vejo em você
E a coragem que você vê em mim
Existe um meio termo morno
Agradável ao paladar

Entre todas as suas roupas jogadas
E toda minha crença em quase tudo
Não resta a mínima dúvida:
Precisamos de mais espaço ainda

Podemos alimentar nossas imagens
Com o que há de mais orgânico
Mas se o veneno não vem de fora
Certamente já está dentro

Não se vive muito bem
Sem ter contato diário com o letal
É bom para a pele (a ciência comprova)
Saber ajustar a hora do bote

Uma hora, nos despimos de nós
E não tem jeito:
A pele se torna transparente
É a desistência de nos vestirmos

Acordamos com quase nada novo
E, que eu me lembre
Esta foi minha última novidade:
Quando você ri, é de verdade

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Da diferença entre se relacionar e torcer


É simples. Relação você tem com pessoas, daquelas que andam, respiram, têm problemas, têm delícias, etc. Torcer você torce para o time de futebol, para sua menstruação descer, para não ficar careca, para o dado cair no número seis, etc. A relação está diretamente ligada à carne, osso e espírito, enquanto a torcida se liga a um monte de coisas, e uma delas é o jogo. Então, meu Jesus Cristo, como é que podemos estar ligando a relação ao jogo de maneira tão abusiva, como andamos fazendo?

Eu quero te dizer que se você:

1 - Odeia esse negócio de ter que pensar "se eu ligar/mandar mensagem vou tá sendo pegajosa(o)?"
2 - Odeia ter que adivinhar que quando a pessoa te diz "Blablabla, qualquer dia vou ser uma árvore" ou alguma coisa sem sentido nesse nível, ela na realidade quis dizer "Bora sair de novo?" só que não disse porque pensou com a lógica do 1.
3 - Odeia  ter que se afastar, quando na verdade você quer é tá o mais perto possível, só porque a pessoa vai sentir sua falta e te procurar, porque aparentemente essa é uma lei universal

Enfim, se você não curte nada disso, me liga. Eu posso não te atender, mas não vai ser porque eu to fazendo a linha "difícil" pra você se apaixonar mais e mais até me pedir em casamento. Não. Se eu não atender vai ser porque eu to fazendo algo BEM melhor, e isso pode ser desde estar dormindo até estar caçando avestruzes na Terra dos Avestruzes. Provavelmente eu vo tá dormindo, porque eu sou contra caças. Mas enfim, o caso é que se eu não te atender vai ser por um motivo sincero do meu coração. Não vou te atender porque eu não quero. Lembra disso, "querer"? É tão bom respeitar nosso querer, gente. Pra que tanta lambança sentimental?
Mas, eu também posso te atender. Principalmente se você for um vegano fofo que curte uma horta organica, toca violao, vive do que a natureza nos dá e concorda que crianças não devem ser alfabetizadas antes dos sete anos. Aí, meu amor, pode ligar até na hora da soneca do domingo a tarde, que eu atendo. (risos, só falei isso porque eu sei que esse cara não existe muito fácil, minha soneca tá garantida)

Com toda essa preocupação que ronda nosso cotidiano amoroso, eu sinto falta da entrega e da pequena liberdade que o amor tenta trazer. Sinto falta de não ter medo de perder. E aí, bazinga! Jogamos para não perder. Pode isso, Arnaldo? Claro que pode, todo mundo que joga, joga para ganhar. Não vem com essa de que o importante é competir, gente. Se tem uma coisa que não é importante nessa vidinha de meu Deus, essa coisa é a competição. Coisa mais chata do universo. Mas, recapitulando: a gente enfiou o jogo no amor; quem joga quer ganhar; quem quer ganhar fica meio retardado. Fica, gente. Fica problemático. É só ver como tá o mundo hoje, e é tudo resultado do que? Da lógica competitiva. Nem vou falar da lógica capitalista que se enfia no meio disso tudo e quase transforma nossos relacionamentos em contratos de compra e venda e nem vou falar das datas comemorativas que nos dizem quando devemos comemorar o amor que sentimos.

Vou falar só da chatice que é ter que segurar nossos impulsos mais plenos. E não fazemos isso só com a pessoa com a qual estamos nos relacionando amorosamente, mas com todas. Algo nos prende e nos enrola a língua na hora que o corpo todo quer falar "cê tá linda(o)", seja pra quem for. Seu corpo todo, cara, quer se expressar. Mas a gente cruza os braços, porque fomos condicionados até o pescoço (na verdade até acima do pescoço) a acreditar que perder é o fim.

Deixa eu te contar uma coisa, amor: a gente perde tudo todo dia. E a gente sobrevive, eu juro. A prova disso é que você tá aí, vivinho, depois de sei lá quantos anos perdendo e perdendo e perdendo. Quanto mais perder, melhor. Perder essas amarras que a teia da sociedade nos traz. Perder verdades absolutas. Perder o grande amor da sua vida, pra perceber que nada disso te faz perder sua consciência. Salvo as vezes que a gente bebe até cair por causa dos términos. Mas, fora isso, existe uma parte sua que tá conectada com um universo, cara. Um universo, já pensou? Para agora, e pensa em quanto esse mistério é grande, e quanto nós somos pequenos...

Estar pleno, onde quer que você esteja, significa uma entrega incondicional, e só na energia do amor ela é capaz de ser. Estar pleno não envolve jogo, nem torcida, nem dados, nem primeiro ou segundo colocados, nem brigas por sms, nem ciúmes por causa de Facebook. Estar pleno tem a ver com o barulho que a gente escuta com um só ouvido, porque o outro tá grudado no pescoço de alguém que estamos abraçando. E a gente fica ali, só sendo.

Aí, não precisa torcer pra nada. Já pensou, que alívio?

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Só de Te Olhar



Te olhar vai sempre ser mais bonito que você
E somente quem te olha pode perceber
A dor que virou livro, o amor que virou espírito
E a paz que está em volta e sempre bate a sua porta

Te amar vai ser sempre mais alegre que te ter
E só quem te ama vai me compreender
Na sua cor, o tom do abraço
No sorriso, o maior laço humano que se pode ver

As vezes sente o frio, ou se joga no rio
No mesmo dia todas as temperaturas
Mas, se é pra ser casaco ela é
Se é pra te ventar, ela te venta

Se é pra atravessar a rua, mão
Se a sola do pé está nua, ela é chão...
E esses versos nem começam a explicar
Tudo que eu já notei, só de te olhar

Coleção

Guarda mais esse poema que eu fiz pra você
Deixa livre, que deixar é mais que querer ser
Vão dizer que alguma hora as coisas vão mudar
Mas você sabe que uma hora é muito mais que estar

Sua oração no agora só vai florescer
Sua mão, peito e viola vão te merecer
Nossos corpos irmanados nunca vão estar
A mais de uma mente de distancia

No por enquanto a gente vive sem querer crescer
A natureza entende e o homem fica a questionar
Por que será que essa gente cismou de amar
Mesmo sabendo que o belo
É só passar?


Para Raí Freitas

Paineira


Teu encontro é meu atraso preferido
E esse é o cabelo mais bonito
Que eu já vi passar pela beira do rio
A se distrair pra se encontrar

Teu andar é a lentidão que o mundo espera
Algum dia aprender na hora certa
Seu olhar é quase versável, mas só quase
Pois não se versa sobre a porta de Deus

O caminho já esqueceu seus rumos
E ainda bem
Seu amor é a bússola mais antiga
Que se tem notícia de norte a sul

Onde você nasce todo dia, heim?
Como faz pra ser?
Eu to te olhando, me admirando
E só o que tenho de lembrança

É que a semente da sua paixão
Nasce em casa de algodão
E, você, pra onde cresce
Sorri pros laços que tece
E deixa ir


Para Andiana Freitas

domingo, 28 de julho de 2013

A padaria
Paz daria
Se não fritasse esses sonhos
Pra viver


O Trabalhador

Já é novembro e eu nem lembrei de reparar
Na estação passada, a sua preferida
Na cor do seu vestido, na vida colorida
Eu nem lembrei de me orientar

Pra ver que eu perco todo dia em vão
Só pra comprar o pão
E acordo cedo e muito feliz pelo dia
Em que eu vou jogar tudo pro alto, que alegria!

Mas já é novembro e então esse dia ainda não chegou
E eu esqueci de perguntar do seu cabelo, cê cortou?
Paguei as contas mas já não me sobra energia
Pra te explicar que tudo isso é muita covardia

Ainda bem que não precisa…
Eu chego e você ainda me alisa
O cabelo, o peito e o antebraço
Desculpa, mas eu vou te trocar pelo cansaço
Só mais um dia


Presente


Toma um gole de calma, que é melhor pra ver
Tudo que está por dentro a ponto de ferver
Sente um pouco do frio lá fora e depois volta
Seu cachecol é você

Toda beira de caminho é quase um rio de perigo
Quase um poço de abrigo, quase um mar de vida só
Toda hora de acordar é quase de cortar o umbigo
Quase uma chuva grossa e, de novo, quase um mar

Sonhe lento, tome tento
Pegue em todas as mãos que puder segurar
Tente a crença, a água benta, e logo você vai voltar
Pra sua casa, vai abrir a velha porta e ver que é lá
Que dá pra descansar

Empresta um olhar de carinho
Cuida da sua magia de ser assim
Um pouco de verdade, um pouco de saudade
Uma alegria velha e uma novidade

Então, hoje quando o fim do dia chegar em você
Tira a roupa, o sapato, põe seu pé pro alto
Guarda o resto do dia pra virar meu horizonte
Mesmo que de longe

quarta-feira, 13 de março de 2013

Paz Demais


Qualquer dia desses eu me rendo
Arrumo o quarto e me entendo
Vou viver agradando a paz
Dos demais

Qualquer dia, amigo
Eu lavo a rua, a calçada
(A minha e a sua)
E aproveito pra dar um bom dia
A mais

Pra quem quer que passe
Naquela hora
Nessa bendita, justa hora
Em que eu me levantei só pra fazer

Uma coisa que ninguém achou que eu faria
Nem de noite nem de dia
Mas é que a rua hoje fez
Por merecer

Mas qualquer dia, amigo, eu me rendo
E por enquanto eu me contento
Em passear por tudo que não me dói mais

Principalmente pelas roupas espalhadas
Pelos amores e gargalhadas
Que se eu não fizer, ninguém mais faz

Principalmente pelas guerras afastadas
E calamidades abandonadas
Que se eu não quiser, ninguém mais traz

terça-feira, 12 de março de 2013

Minha Festa


a delícia do mundo tá presa na rua
a beleza do canto da terra é só sua
quando tudo se junta pro mundo cair
é que eu te dou a mão só pra gente assistir

você chega, me arranca a razão e a camisa
me chamega, me alisa e me beija a barriga
se eu te olho por mais de um segundo, já era
cê me mostra que valeu toda minha espera

meu bem, isso tudo é só pra te dizer
que quando eu to com você
a minha festa é deixar
a sua acontecer

vem cá, que isso tudo é só pra te dizer
que se eu te olho é porque
minha festa é amar
só você

Desencadeou


Você pode ir, pode voltar, pode ficar, pode abraçar. Pode ser.
Pode ser que eu sempre possa pensar que eu é que deixo você fazer qualquer coisa.
Nem sempre eu lavo tudo que eu sujo na hora, mas hoje a louça é minha, amor. Hoje a louça é minha. E sabe que até isso é bom? Sair do caminho e devolver o som pra tudo que antes era gritado e amanheceu com cara de calado. Sabe que eu arrisco atoa quando eu sei que a risada é boa? E se antes do fim der gargalhada, é que eu já cruzei a linha de chegada há uns dias atrás… Não te preocupa, e se tudo anoitecer atrasado é porque eu esqueci de trancar o cadeado… Desencadeou.

Desencadeou


Você pode ir, pode voltar, pode ficar, pode abraçar. Pode ser.
Pode ser que eu sempre possa pensar que eu é que deixo você fazer qualquer coisa.
Nem sempre eu lavo tudo que eu sujo na hora, mas hoje a louça é minha, amor. Hoje a louça é minha. E sabe que até isso é bom? Sair do caminho e devolver o som pra tudo que antes era gritado e amanheceu com cara de calado. Sabe que eu arrisco atoa quando eu sei que a risada é boa? E se antes do fim der gargalhada, é que eu já cruzei a linha de chegada há uns dias atrás… Não te preocupa, e se tudo anoitecer atrasado é porque eu esqueci de trancar o cadeado… Desencadeou.

Bicicleta


Eu já não sei se é o caso de apaixonar
Eu já não sei se o motor agora vai pegar
O fato é que a gasolina nunca vai faltar
Pra nossa bicicleta...

Eu já perdi a aspirina e a dor vai passar
Entre limão e algodão doce é bom se arriscar
Mas desde que não se aborreça em me perguntar
Se essa é a hora certa...

Depois de hoje eu já não sei mais do que tropeçar
Andar é bom mas uma hora a perna vai cansar
O caso é que a bicicleta nunca vai faltar
Pra nossa caminhada...

Eu perco todos os remédios de amor e de dor
Aceito tudo que me falam que melhora a cor
Tem vitamina, beterraba, tem bronzeador
E até felicidade...

Mas eu não sei se eu vou sorrir ou se eu vou bocejar
Na hora que eu me adianto, eu vou me atrasar
Então, eu não sei se é o caso de te adiar
Ou de me alimentar

O Amor do Mundo



Não mexe com a minha solidão
Que ela é que sempre me dá a mão
Eu danço, me alegro e aprendo
Que a festa da gente vem de dentro

Eu vou lá, só perceber
Sem precisar entender, meu bem
Só olhar e receber na pele
O amor que o mundo tem

Bagunça a minha percepção
Que ela é que sempre me tira o chão
Aí eu caio, apavoro e contemplo:
O abismo da gente vem de dentro

Me amarrei nas nuvens mais infinitas
Vi chover as coisas mais bonitas
Cores de passado em tintas do agora
Foi quando eu percebi o quanto eu to lá fora
… De mim

Eu fui lá sem perceber
Não precisa entender, meu bem
A gente ainda vai crescer
No amor que o mundo tem

A Mesma Reza



Aqui
Tá tudo do jeito que sempre foi
No almoço ainda é feijão e arroz
O coração ainda é vermelho
E a ilusão ainda bate no espelho

E mesmo assim
Tá tudo virando ponta cabeça
Parece que o mundo quer que eu me esqueça
Por onde eu já andei descalço e a pé
Só pro chão conhecer minha fé

É que é muita coisa pra conhecer
É muita fé e pouco saber
Gente que quer se abraçar em paz
Sempre se arranja em meio ao caos
E mesmo assim

Tá tudo estampado em milhões de cores
Nunca paramos de falar das flores
E a matemática continua chata
Como toda coisa que é exata
Vai por mim

Que ainda vai continuar assim
Pro nosso bem
A coisa muda, mas a vida é reza
E ainda termina no amém

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sobre Amor


O amor é.
O olhar… O olhar também é.
Se você usar o olhar no amor
Vai ver surgir uma infinitude de seres
Dentro de uma só vida,
Dentro de um só verbo
Que mostra seu corpo de acordo
Com o que nosso olhar pode acolher
E que abre seus braços de acordo
Com o que nosso peito anseia receber
Se algum outro verbo se juntar ao amor
Por qualquer acidente comum
Ainda assim, o amor simplesmente é.
E, sem amor, não há quem seja.

Mundo Todo


Todo mundo grita quando acaba a luz
Todo mundo aplaude quando o sol apaga
Nesse todo mundo acho que ninguém viu
Que o mundo todo tá na gota d´água

Também cai quem se levanta
Mais de cem mil vezes
Também vai quem sempre fica
Só matando a sede

Quando o amor não basta
É que ele é amor
Coisa que se basta
Não tem onde por

Porque todo mundo chora quando a vida vence
Enquanto o mundo samba, todo mundo mente
E nesse todo mundo acho que ninguém viu
Que o mundo todo já tá por um fio

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Última Batida



Afinal, que expectativas teria o universo
De nos simplificar a aceitação
Acerca de todas as coisas que não devemos entender?
Que poderíamos fazer além de tentar melhorar as palavras
Adoçar as receitas, misturar as cores fortes às claras,
Assoprar para alguém não se queimar
Assoprar para alguém se ventilar
Assoprar para varrer
Que poderíamos fazer além de esquecer algumas besteiras
Para dar lugar a outras poucas e melhores
(Se é que existe alguma diferença entre besteiras)
Que poderíamos nós – nós, que só sabemos perguntar,
Que poderíamos entender além da dúvida?
Afinal de contas, que perspectivas teria o universo
Para nos apresentar toda essa planície doida de possíveis tropeços,
Toda essa mesmice de montanhas e avessos,
Toda essa beleza chata que é a pergunta...
Afinal, como não esperar um deboche universal?
Não damos a largada na linha de chegada?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Céu Está Cansado


Desde que o mundo é fundo
E desde que eu me entendo por mente
É assim:
Nem tudo que sai do lugar deixa o espaço vago

Quanto mais carros se juntam
Na composição dessa coreografia estranha
E quanto mais gritos se arranjam
Nesse coral sem cor, suburbano
Mais lugares permanecem ali
Apenas assistindo

Enquanto o céu ameaça suar
Respiramos esperanças mofadas pela idade
Contemplamos lembranças passeando a nossa frente
Empurramos tudo, como se não nos faltasse a coluna
Tudo permanece mudo, e não há coisa alguma
Que faça tudo falar

Mas, desde que se anda pra gente
E desde sempre
Nada nunca esteve longe do presente
Os lugares permanecem ali
Rindo disto também

Fortuna


Eu sou uma gente estranha demais
Para não ser cotidiana
E por mais esforço que eu faça
Eu ainda não consigo gostar de nada
Que não dê formiga

E mesmo tudo que há de mais doce e morto
No meu dia a dia
Anda me roubando poesia desde que eu sonho
Em ser gente
E se existe uma categoria de tropeços
Que merece toda minha reza e adoração
É esta:
A ala dos ladrões de poesia

Todas as noites eu faço, por eles,
Um silêncio pequenininho
E volto a respirar
Com a paz de quem dorme e acorda
Com poucas certezas bonitas
E com muitas memórias escritas

Em todos os bares eu peço a mesma dose de saída;
Eu nunca quero ficar.
E não me falta a paz de quem dorme e acorda
Com algumas invejas na bolsa
E com poucas tragédias
Não passíveis de riso

Sorrir é Coisa Séria


E depois de tudo isso
Eu ainda não me fiz entender
Porque não há nada mais sério que um sorriso
E nem mesmo a tristeza merece
Ser tratada com tanta seriedade

De todas as vezes
Que eu tentei explicar as coisas com levas de palavras
Eu só me arrependo de todas
Mais ou menos todas…
E a minha maior fraqueza agora é essa:
Tentar usar palavras
Minhas fraquezas costumam ser mais fortes do que eu
Por mérito delas

E toda vez é assim:
Falo do universo inteiro
Como se ele fosse um pé de qualquer coisa
Totalmente à merce do meu olhar
E ando encontrando gente corajosa o suficiente
Para mentir e me dizer que entendeu
Coisas que eu nem expliquei

Sorrir é coisa séria
E depois de ser minha própria droga
Eu ando querendo ser comum
E sou

Quando a Água é Mar



Hoje, quando tudo pareceu nos conformes
Eu notei que algo estava errado 
Algo como... Tudo, talvez 
Ou uma parte de tudo, tanto faz 
Não me lembro de ter presenciado tanta pressa 
Em desconformar as coisas
Foi rápido. 
Desacrescentei algumas cartas do meu baralho 
Desamarelei alguns sorrisos e vinganças 
Me desesforcei para poder chegar onde quis 
Me ajoelhei para manter de pé o meu nariz 
Fiz tudo sozinho, 
Apesar da larga margem de pessoas onde quebro minhas ondas. 
Porque quando a água sabe que é mar
Podem lhe tirar o sal, pode o sol ir se deitar noutro lugar 
Pode sua margem recuar ou avançar 
Pode até a vida cessar de nadar
Quando a água sabe que é mar 
Ela se faz sozinha de matéria
E colhe sua crença na intuição 
E na consciência
Sua pretensão, sua proteção 

E eu nunca vi um mar infeliz 
Por mais de uma vida

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Esqueci


Das miudezas que eu não quero mais
Essa é a que eu menos joguei fora
Luzes acesas, sapatos, jornais
A casa é só uma sala
Depois que a cor vai embora

Só que isso aqui ninguém quis
É por isso que ficou pra trás
É pequeno, não deu pra dividir
É ameno, ninguém quis sentir
É amônia, ninguém vai engolir
Vira insônia quando é hora de dormir
É insosso, mastiguei só pra cuspir
Mas, ainda assim
Das realezas que eu já me cansei
Bom súdito que sou
Para essa eu sempre me curvarei

Mas, não muito
Porque quem muito se curva
Acaba dando voltas em si

Paredes riscadas, defeitos estranhos, notícias
A casa é só um corpo
Depois que a alma vai embora

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vertente


Para Wesley Faria


Contratos são assassinados todos os dias
E ninguém se lembra de chorar
O contrato te maltrata,
É melhor por seu nome em outro lugar

Moço, uma hora você vai ter que aceitar
Ou pelo menos gargalhar!
O caso é que, você, não usa terno pra casar
E nem pra se empregar.

Alvoroço, eu sei, eu sempre sei
Quer dizer, eu sempre digo que sei
Vai ser sempre difícil,
Qualquer novo dia vai ser sempre um míssil
Qualquer hierarquia vai ser uma covardia
Uma grande covardia pra você, moço
Que é tão irreversível

E é tão inadmissível
Até mesmo para seus próprios mísseis
Imagina para as missas?
E imagine então para as massas?
É tão inadmissível, moço
Que só pode se demitir de seus cargos e encargos
Antes mesmo que eles se ofereçam a você

Moço, uma hora você vai ter que bocejar
Na frente de tanta gente que toma guaraná
Porque o caso é que você pode desrespeitar
Tudo que te diz respeito;
É seu direito.

Mas, moço, não deixa de comemorar
O fato de que ninguém nem sonhou em concordar
Com o tom do seu bom dia, com a cor da sua alegria
Com o seu jeito de não ligar pra postura,
E com o cansar da sua ternura

Comemora, moço
Por abrir caminho sem maquinário e sem facão
Do seu lado pode não ter corrimão,
Lá em cima pode até ter trovão
Quando cansar, comemora
Lá na frente o seu pai mostra a solução
Olha pra baixo, que esse é seu chão


Para o Bem de Alguém


Mas aí eu inventei essa ganancia
De entender a velhice dos meus dias infantis
E quis trocar as fraldas desses lamentos antigos
Que eu já não sei se são crianças ou não
Só sei que não cuidam de si sozinhos
E que, apesar de já terem caído de inúmeros ninhos,
Ainda não conseguiram ser atropelados;
Ainda não se apartaram das pernas quebradas;
Insistem em ser predadores
Com as asas presas

Agora já dá pra entender a discrepância
Entre o que se faz entre um pedido de paz
E o que nos faz voltar atrás
Sem perceber, a tempo
Que andar pra trás te faz cortar o vento
No pior dos sentidos

Mas aí eu entendi essa concordância
Entre o que eu sinto e os meus sentidos
E, sem perceber, o tempo
Quer andar no pior dos sentidos
Para o bem de alguém



domingo, 29 de julho de 2012

Retrato




De todas as fotos que empoeiraram
Eu sempre fico querendo me lembrar
Do que eu tanto ria

A cada pétala de poeira que chegava
Para fazer morada
Eu fui me descascando,
Até ficar assim
Contra o aborto de outras barrigas
Fazendo aniversário sem encher bexigas
Esquecendo em um segundo toda e qualquer briga
Que não seja antiga

Não sei, mas parece que não deu certo
Nenhuma fotografia traz nada pra perto
Sei lá, parece até que deu errado
Ou então,
O flash da minha memória anda desligado...

Porque de todos os retratos que se retrataram
Nenhum veio me relembrar
Do que eu tanto ria
Será que era só pose?
Será que é, ainda hoje?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Satisfação




Tem dias em que fica ainda mais evidente
Que tem dias que a minha cabeça não merecia
Ter um corpo
E a única coisa
Que me cabe passar um tempo ensaiando em fazer
É me desculpar por essa bagunça orgânica
Que não vai se matar tão cedo
E, que pode morrer ao acaso, eu sei
Mas, caso o acaso também seja bagunçado
E antes que eu me desvie ainda mais do assunto
Ficam aqui
As minhas mais cínicas e amigáveis desculpas

É que eu não sou lá tão verdadeiro,
Desculpa por isso também
Eu finjo bem porque eu me acostumei
E não desacostumo por pura preguiça
Preguiça de gente
Preguiça de agir por gente

Ultimamente não tem me sobrado saúde
E eu tenho desistido de discutir já no primeiro ensaio de resposta
Não tenho mais persistido nos direitos e nas apostas
Tenho tossido mais do que respirado e, ainda assim,
Tenho achado abusivo o preço do Marlboro

E sabe o que você tem a ver com isso?
Tudo

Então, caso você tenha chegado até aqui
Me desculpa
Mas não é nada disso

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Embarque


A suspensão do meu peito pela manhã
Ainda que seja tarde
É a proa da minha prosa
Na minha viagem meu atraso é pontual
O meu ponto e vírgula veste moletom normal
E não se cogita nada fora da horizontal

São quatro colheres cafeinadas
Pra minha xícara desvairada
E se a água não estiver fervida
Eu é que fico desvairida
Por não ter o que assoprar
Por não ter onde formar ondas
Por não ver nada surfar

Andei precisando de âncora mais pesada
E acabei ficando mais leve, foi fácil e deu certo
Porque aqui, esse leme não me cobra um lema
E essa popa não quer ser meu Papa
Mas, acaba sendo

O esforço do braço pra alcançar a maçã
Mesmo quando a ferida arde
É a proa da minha prosa
Na minha miragem o acaso é opcional
O meu ponto de vista sempre foi bem marginal
E o mastro da minha ida sempre acorda maestral



Emily



Arte: Wesley Faria (www.realejodapoesia.blogspot.com.bt)





Você pode imaginar, mas
Só eu sei pra onde eu olho
E só eu sei dos meus desenhos
E, apesar de toda exclusividade
Só eu sei que quem me pinta
São as cerdas de outros olhos
Só eu sinto que o vento muda
Toda vez que piscam os cílios desse pincel
Mas, daqui pra frente e pra dentro
Só eu sei a cor da tinta
E só eu sinto o chão macio que foi traçado
Sou eu quem rabisca o vazio
Que era usado pra amortecer derrotas
Eu, que ajudo a construir beleza
Muitas vezes nem me sinto parte dela
E eu, que persigo o breu da clareza
Muitas vezes minto ser a sua tela

É só uma brisa
Meu cabelo alisa
Logo o ar se cansa e para
Logo o artista dança
E se sara

Abraço


Deduz, em aspirante previsão
Que a conduta do outro irmão
Vai satisfazer seus segredos
E se decepciona ao perceber
Que nenhum outro ser
Está sob seu poder

Vai segregar seus sentidos
E humanizar os ouvidos
Que escutam seus sussurros
Que ninguém pode saber
E entender que deduzir
Não é confiar
E não é mister confiança
Para amar
Já que a nossa semelhança
Permite errar

Não se ofenda, pelo contrário
Mas eu não te confio
Eu também só te deduzo
Como quem contempla uma tarde
Eu te arrisco com tranquilidade
E faço o mesmo comigo

Não tenho muito a perder
Que não se possa recuperar
Do perdão eu não desvio
Qualquer caminho eu cruzo
E as contas da minha reza
Nos apartam do vazio
E é por tudo isso que eu tanto rio

Toda essa minha alegria descansada
Sou eu quem crio

Troco Errado


Andamos tão cheios de etiquetas
Que nossos valores viraram preços
O egoísmo consome nossas plaquetas
E nossos amores padecem nos leitos
Nossas vidas, tão cheias de letras
Se tornaram simples adereços
Pagamos caro por um carinho
Damos aos amigos as migalhas
Pegamos carona, um pouquinho,
No medo de assumir as falhas
Dia a dia abortamos o afeto
A cada oito horas, um comprimido
Não temos minuto para ficar quieto
Vigiar a velocidade dos segundos
É o que nosso relógio faz primeiro
Morremos pelo fundo de garantia
E deixamos de nascer o dia inteiro
Imagina o quanto a gente se amaria
Se confiássemos menos no dinheiro

Acato ao Maracatu


Caiu um cisco
Caiu Francisco no olho do mundo
Lacrimejou
A pele árida da face da Terra ele molhou

Caiu um cisco
Caiu Francisco nos olhos da gente
Incomodou nossas retinas retas e secas
Descortinou as janelas das nossas lentes

Caiu um cisco
E eu duvido que você não leve a mão no olho
E eu duvido que você não ponha os pés de molho
Na textura dos solos da ciência de Francisco

Caiu um cisco
Um nordestino no destino da nossa gente
Um inquilino que nos aparta a mente
Para cruzar a estrada de chão das ideias
Lá, onde o asfalto nunca fez falta

Caiu um cisco
Caiu porque veio de cima
Mas caiu felinamente levantado
E até mesmo seu silêncio ensina
Que vivemos num grande mangue
E estranhamente a vida se anima
Pisando a lama e com rosto suado
E a gente aprende a ir pra frente
Andando de lado

Caiu um cisco!

Equilíbrio


Só tem você ali.
A confiança presenteada ao olhar
Guarda a mira que inspira equilíbrio.
É como mirra que espelha nosso alívio.
Tudo sempre bambeia por fora,
E quem assiste à imagem sem sentir
Que o peito prevê a hora de cair;
Quem desiste da miragem sem conferir
Se a imaginação desesperada não é milagre;
Quem vê, triste, o seu desejo sumir
Sem arriscar manipular o futuro,
Só vai ver, nisso tudo, um objeto
Inanimado como qualquer ser desprovido de sopro.
Só vai ter, de conteúdo, o peso vazio
Da superfície inocente que cobre a cena.
Pisar acima do chão público
É a inventiva forma de voar.

Café da Tarde


Fazer o que
Se eu me enxodozei desse jeito?
Que mais além
De te achamegar no meu peito?
Tem de ter muita coragem
Pra perder tempo pensando nos porquês
Tem que ter pouca saudade
Pra trocar esse afago por talvez
Encontrar uma frase que explique
Que foi que juntou um no outro
Por que é que, de dois, virou um só
Quem foi que ajoelhou em reza e promessa
Pro Pai do Céu conceder tanto xodó?
Mas tem que ter muita coragem e teimosia
Pra perder tempo pensando no talvez
Que será que aconteceria?
E o que há de acontecer?
Será que resiste a alegria?
E será que a gente entenderia
Alguma razão desmedida e magra
Que se profanasse a vocabularizar
Uma cheiro, um carinho, a olhar por um triz?
Será que resiste a alegria
Se a gente só pensar em ser feliz?
Só sei que eu já te enchuchuzei
Te endocedecoquei, te embenzinhei
E, fazer o que, meu dengo?
Ficar pensando na vida?
Só se for no cochilo do fim tarde
Na nossa rede estendida
E só acordar com aquele alarde
Do silêncio encafezado no cheiro
Que é o barulho que a gente mais gosta
Vem, que a mesa já tá posta

Praça


A vida é um circo
um reflexo
um circunflexo.
E todo agora em que ainda me iludo
é um agudo.
Por ser meio crua talvez eu nem me case
talvez eu me crase.
De qualquer forma,
sempre tenho chão e perna de índio,
pra nunca ficar sem acento.

Não Era Pra Você Concordar


Não deve ser atoa
O barulho que faz a paz
Que fala alto só quando te abraço...
Não deve ser atoa
A risada que a gente dá
Com uma música ou outra...
Não deve ser atoa
Que a gente escuta as mesmas músicas...sempre...
Não pode ser garoa
Tudo isso que chove na gente
E a minha letra bagunçada é pra guardar pra sempre
Sempre que se possa guardar
E para de tentar me espiar
Porque tudo que você tiver pra ver
Eu vou mostrar

Mas isso tudo é só versar...
Vive, por favor, vive.

Qualquer Letra


Eu não preciso ser musa
Já não nasci muito "moça"
Vivo doente de amor
Por qualquer cura inexistente
Por qualquer célula demente
Por qualquer bicho, coisa ou gente
Eu vivo doente de amor
Mas eu não preciso ser doida
Não preciso e nem sou
Ainda que as vezes eu corra da vida
Com os meus melhores pés
Pra compensar, eu sempre grudo meu peito
Às batidas mais fiéis
Até que elas mintam... E, acredite
Elas mentem uma hora.
E eu também.
Contudo, eu ando pensando
Das vezes que eu ainda vou me esbofetear
E me carinhar
E fico pensando, quanto pesa tudo isso?
Quantos metros pode ter?
Mas, como eu já dizia a um amigo meu
O nosso tamanho a gente não mede
A gente cede

Tudo, desde sempre, se desacaba
Não tá chegando a hora
A hora tá acontecendo
Se desacabando...

Conhaque


Algo quente, por favor.
Seja da cor que for,
Que eu já não ligo mais pro tom.
Então traz marrom, amarelo, neon...
Seja tônico ou não,
Traz seu dom e me serve.
Traz seu dom que ele me serve,
E não importa a demora, a espera, o perdão...
Só me cabe cobrar que venha da tua mão
Tudo que se propõe a estar prestes
A prestar-se ao seu papel
Ao seu amassado, envelhecido e rabiscado papel.
Algo quente, por favor.
E, se for vermelho é melhor!
Se vier rápido eu muito agradeço,
Aliás, ao menos pressa eu mereço,
Que eu já não ligo mais pra nada
Que demore mais que um poema.

Dos Outros

Passam dois, três dias
Arranco dos reis a folia
Desligo o som, apago a luz
Acabo com a festa de todo mundo
Acabo com qualquer coisa em um segundo
Se a alegria não for sua também
Lembra daquela volta que a gente deu?
Eu voltei a pensar nas voltas que a gente dá
Pra fazer e falar qualquer coisa e,
No final,
Não dá tempo
E tudo que a gente fez foi ir e voltar
E perder os meios antes de chegar ao fim
Antes de chegar ao sim
De novo
E não foi pouco, porque foi nosso

O Dia em Que Virei Boneca

Percebi, logo ao amanhecer
Que havia perdido o movimento dos olhos.
Para frente, era a única direção que eles conheciam.
Agora eu só olhava adiante.
Fui tomar banho e notei, sem muita emoção,
Que minha pele já não absorvia a água com tanta facilidade.
Acho que perdi a capacidade de sentir na pele.
A falta de sangue me deixou mais reciclável e fria,
Alguns nutrientes a menos me embaraçaram mais os cabelos…
Cabelo… Sempre foi a minha parte menos desartificial,
Sempre foi meu parque de diversões nos dias de tédio.
Abri meu guarda-roupas e uma novidade confortante:
Agora eu só tenho um vestido.
Um amarelo estampado, com renda no final, como deveria ser a vida.
Não preciso escolher o que vestir.
Só preciso escolher entre me vestir, ou não.
Pela primeira vez na vida, não tenho um dono.
Tenho hora para o chá, tenho uma prateleira e, às vezes,
Por pouco tempo, pego poeira.
Mas nunca mais fui obsoleta.
Sempre existe alguém enxergando diversão em mim.
Uma vez que saí da embalagem, minha vida é criar memórias.
Todo mundo “amava aquela boneca”.
Agora muita gente já me amou, até no futuro.
Sou pouco articulada, mas não me preocupo com as cutículas.
Minha maçã é rosada, algumas pessoas vão me achar ridícula.
Mas, meu rosto agradavelmente só me permite sorrir.
Sorrir e olhar para frente.
Amar quem atropelar meu olhar, e saber ser memória.
Aprendi a ser memória.
Foi esse o dia em que virei boneca.

Nossa Cabana

Do Testamento a Testemunha
Eu me desoriento
Da Verdade a Vivaldi
Visito o ceticismo
De Demóstenes ao Demonio
Acabei herdando cinismo
De Osho a Oxóssi
Eu sigo quem me pergunta
De Shiva a She-ra
Assisto quem me desmonta
Do Abadá ao Abdala
Eu brinco com quem me canta
De Kant a Caatinga
Enceno o papel de santa
De Cartola a Cartolina
Moinhos de papel e vento
Do Acre a Crença
Eu não acredito vendo
De Chico a Chicória
Eu só mastigo crendo
De Platão a Platina
O pódium vai crescendo
De Buda a Peste
Tudo visita o agreste
Do Cachê ao Clichê
Blá blá, sei lá o quê
Do Tupi ao Guaraná
Me perdi no caxangá
Do Profeta ao Prefeito
Meu voto vai me roubar
De Deuses a Teus
Nem verdade nem ilusão
De Sarney a Sarna
A gente vai se unhando
Do Berimbau a Rimbaud
A poesia chega em bando
Do Poeta ao Sol Poente
A vista vai amarelando
Do Poema a Boemia
Nada é perdido em vão
Fica partido o pão
E a fome

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Caso de Joãozinho

Pedra Mingua


Tinha ouvido uma palavra sem sentir muito sentido, e a coisa lhe curiosava de fazer tremer o umbigo! O caso é que um sujeito mesquinho informou preferir ser sozinho. Foi aí que lhe deu na telha de entender que raio era isso, virou compromisso da vida de Joãozinho Marquês, filho e neto de Dona Inês, que era mãe na hora do ensino e era vó na hora de dar mimo.  
O menino cresceu rodeado de tudo que varava o cercado do pedaço de chão comprado com vintém muito suado lá no século passado, quando amar ainda era estar do lado, numa cidade que não ficava nem pro sul nem pro norte, o sol era forte mas não nascia nem pra leste nem pra oeste, uns chamam de agreste outros dizem que é cerrado, e diante dessa confusão toda, a cidade nem batismo de papel tinha ainda, mas ficou conhecida como Pedra Mingua, um nome tão bonito que deixou o povo esquisito a ponto de todo mundo esquecer de perguntar o porquê.
Pra cima da terra tinha coisa que não acabava mais, aliás, Joãozinho achava assim, mas muito daquilo ali já teve fim. O vizinho era o Seu Cardoso, homem de rosto bondoso, nunca que tinha visto o mar e nem fantasma, mas inventava cada doidisse de deixar Dona Inês pasma com tanta clareza que descrevia, como quem anda manso e assovia mesmo quando o apito do trem grita como quem vê a mãe pela greta.
Pra chegar até a casa de Seu Cardoso a chinela gastava um bucado, passava por umas dez árvore alta, uns terreno cheio de falta, subia morro e descia ladeira, que era de molhar a cabelêra com aquele sol localizado bem no meio do teto, bem em cima da cabeça. Era longe. Mas, Joãozinho Marquês nunca que se desfez dessa mania de visitar Seu Cardoso todo santo dia. Na ida e na volta ele via o tanto de coisa boa e ruim que tava acompanhando aquela caminhada pelo trajeto que nem era estrada, era só vontade arretada de dar laço entre uma casa e outra, como quem embrulha pra presente. E era mesmo, porque embrulhar pra futuro era motivo de desconjuro, porque com futuro a gente nem perde tempo de gastar papel bonito. Futuro é bicho esquisito, não sabe se inventa ou imita, não sabe se vai ou se fica, não é motivo pra gastar fita.
Quando não tava nem indo nem voltando do vizinho, ficar brincando era o domingo de Joãozinho, fosse o dia que fosse. Ele morava num quintal que por um acaso tinha uma casa, que pra ele nem importava muito. Achava exagerado aquele troço cheio de lado que teimava em deixar separado do quintal seco esverdeado tudo quanto é gente que fala ou que late, mas se confortava: “Parede faz parte”. Parede só faz partir o que antes era juntado, é de deixar qualquer homem agoniado e é mal que nunca foi remediado. Hoje em dia tem piorado, tudo ficando mais asfaltado, vizinho ficando mais afastado, mesmo que more tão do lado que chega a esbarrar um no outro. Parece que o povo todo mudou pra gritaria e esqueceu que o bom dia tá ali do lado e ainda mora com o cafezinho passado na hora.
Mas, retomando o rumo da história, aconteceu que o fato de o sujeito mesquinho ter preferido ser sozinho acabou dando pano pra manga cumprida de tanto que a cuca do Joãozinho num tava entendida. Como é que o mesquinho hoje conseguia acreditar que tava sozinho a vagar num espaço onde falta até lugar pra enterrar gente deitada; um lugar que tem rua que passa até por baixo d´água se bobiar, só pra o povo não se atrasar e muito menos ter que frear e menos ainda ter que andar? Como é que o mesquinho arrumava jeito de guardar no peito a tranquilidade de ser só nesse mundo cheio de cidade? Joãozinho achou bonito e sereno, e passou a querer ser ameno ao menos uma vez na vida pra poder dizer que também prefere ser sozinho.
Aconteceu que bem antes de tentar ser só, o laço do presente tratou de virar nó e ele arrumou foi problema maior porque, se fosse assim, ele mais o mesquinho iam ser então sozinhos juntos, e isso embaraça até dicionário careca. Joãozinho percebeu uma aperriação da tão sonhada condição de não se esbarrar em mais nada: não cabia mais de um nessa palavra. Sozinho não tem plural.
Mas a vontade de ser só era tanta, que Joãozinho cochichou uma reza pra sua santa e  passou a mão numa espingarda velha, que sempre viveu guardada, quando concluiu que só existia espaço pra um sozinho, e resolveu disparar na cabeça do mesquinho logo cinco estouros pra garantir que ia morrer pra sempre.
O barulho do primeiro disparo foi a última coisa que Joãozinho escutou. Ele nunca foi  bom de tiro nem de caça, e acabou restando só a carçaca, pois o fato é que ele tinha mirado na mesma casa em que ele próprio morava.
Foi esse o dia em que morreu Joãozinho Mesquinho, como era conhecido pelo povo de Pedra Mingua. Ele e a cidade tinham muita coisa parecida, e Joãozinho também nunca conseguiu batismo direito, e acabou sendo o tipo do sujeito com um grande nome de gente pequena, sendo ão ao mesmo tempo que era inho. E não se sabe como Joãozinho ganhou a companhia da mesquinharia, mas como o tiro foi do lado direito ele acabou morrendo primeiro que o Mesquinho que também morava ali, só que do lado esquerdo. E nem na hora de morrer Joãozinho teve o prazer de conseguir e merecer ser solitário. Joãozinho, coitado, foi otário. Nem sempre o direito é correto. Devia ter atirado do lado certo, mas seu apelido nunca foi João Esperto.


Deia Pereira

sábado, 21 de abril de 2012

Boemia



Seu dom, seu domingo
Poseidon domador
Seu sabado badó bocó
Sabido bêbado sem dó
Segunda, seu guru faceiro
Que te afunda o ano inteiro
Pra na terça ter satisfação
Da véspera do meio, então
A quarta guarda a esperança
Avisando a vizinhança
Que quinta quem tá de bobeira
Já pensa que é a outra feira
Porque sua sexta de pique nique
Traz a moça branca do alambique
E já que a vida é dose
Desce uma dupla pra eu viver mais
Entre um pigarro e um cigarro
Eu vou tragando no meu traje
Que eu não meço no meu maço
O meu tempo e o meu espaço
Não temo pelo meu templo
Meu dom, meu domínio
Meu tom, metonímia
Meu job, meu Jobim

Janela

Deia Pereira e Fael Abranches 


Na entrada, o olho mágico só nos reporta
Já nela, a curva da Terra convida à investigar
Na campainha, só a nota que seu tom comporta
Já nela, a partitura avisa chegadas e lembra partidas
No tapete, pés esfregam a história que a sola porta
Já nela, pontes de lençóis amarrados e cabelos trançados 

Na moldura, o verniz alivia as margens da cela
Na tela, o rio corre para a teimosia do além
No pincel, a lingua se alfabetiza torta, em cores
Na vela, a chama treme entre a prece e o amém
Na escada, a boca da penitencia ria
No joelho, o ralado do perdão que mereceria

Na vidraça, a limitação do toque
No olhar, o drible do infinito
Nas prisões da mente penitenciária
O sol nasce fadado
A alumiar o mundo limitado
De quem ainda não amanheceu
Para perceber que a nossa casa
Se ilimita conforme a forma dos olhos

Não se calculam os lados do infinito
Nem cercam com muros os nossos gritos
Não se calculam os lados do infinito
Nem cercam com muros os nossos gritos
Não se fecham cercos a nossa matéria,
Somos e não sabemos beleza etérea,
A gente sente, e disfarça a vontade férrea
(E mente) pra manter a mente aérea.
Ser um só não é físico.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Erê Particular




Deixa
Que mesmo que a sorte encalhe
A estrada arruma outra crença
Traz de volta o que nos valhe
Mais veloz que a gente pensa

Madeixa
Lá do topo do seu ser
Na palha do meu chapéu
Faz a cena enrubrecer
E eu brincando de ser céu
E eu brincando de certeza
Lembrando que a natureza
É folha, não é papel

Ameixa
Um pé disso, uma muda
Um pedido de ajuda
De um erê particular
Que, brincando de ser terra
Foi brincando de ser água
Aprendendo a soprar vento
Embarcando o sentimento
Pra esse fogo não queimar

A queixa
De pertencer à um lugar
Nos deixa bem mais perto de voar
Pra onde quer que se possa brisar
Pra onde quer que a posse não seja altar
Pois quem quer possuir
Não tem propriedade pra amar
Ter mil mundos de endereços
Pode até nos ajudar

Deixa
Essa giranda te encantar
Logo uma criança vai te contar
Como se dança essa música
Pra quem precisa chegar
Lá onde se ensina a sentir
Sem ter 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Vontarde


Aquela vontade de passar uma tarde olhando pela janela mais alta e ficar acreditando nas verdades que inventamos imaginariamente para a vida de cada desconhecido que passa lá embaixo, atribuindo pressas e belezas à essas pessoas, no convencimento ilusório e infantil baseado nos critérios que a gente acabara de inventar e, quando a gente menos espera, chove...
Toda tarde é uma janela alta.

Seu Céu

Foto: Milton Montenegro - Sísifo - 1988


Repara nessa vida, que
sempre que o céu anuvia,
a primeira gota de chuva que cai
toca a sua face.
Ela não cai no asfalto, nem no arbusto;
ela se joga do alto - como num susto!
E se entrega à tua testa.
A notícia de que tudo vai molhar
chega primeiro em você.
O céu pode escurecer, trovejar,
mas a certeza consumada
da cachoeira celeste
que aparece pra ser norte
se dá apenas quando a sua pele,
a sua cansada, queimada e suada pele,
é acariciada por ela: a primeira gota da sua chuva.
Às vezes ela demora a cair
porque você se mexe muito, e ela
fica lá de cima a te mirar, a quase cair,
a repensar, recalcular,
a fazer de tudo para não te errar.
Porque a primeira gota da sua chuva sabe que,
se ela anunciar seu temporal aos outros antes,
guarda-chuvas se abrirão como primavera.
E, muito mais rapidamente, as pessoas
andarão mais rápido e olhando para baixo,
e não para o lado, e bem menos para cima.
As poças escondem os desníveis das suas ruas,
a lama te convida a escorregar,
e é o medo quem dita as cores à sua volta,
escolhendo a diversão ou o caos.
A primeira gota da sua chuva é você quem sente
e a intensidade das suas águas não te embaça a lente,
porque você enxerga a naturalidade dos seus temporais
com a pele.
A primeira gota da sua chuva, é você quem sente. 

terça-feira, 13 de março de 2012

Trevo




Não sei se sim ou se não
Israel, Mossoró ou Leblon
Se encho a barriga de pão
Gastando último quinhão

Eu não sei se vou ou se fico
Se compro, se vendo ou fabrico
Eu não sei se fico ou se vou
Se vivo ou se falo de amor

Não sei se corro ou se ando
Tá tudo se congestionando
Eu sou é seguir caminhando
Cá minha dor, caminhando…

Ventilador vem tirando
Esse calor abafado
Destila a dor deste lado
Não sei se rio ou se zango

Baião eu não sei dançar
Não sei se pra lá ou pra cá
Nem um ovo eu sei fritar
Capaz da gema estourar

E nesse vai-não-vai da vida
Eu danço sem compromisso
Coisa nenhuma decidida
Amanhã talvez eu pense nisso 

Neguinho




Não é a parte que me faltava
Não é tudo que eu precisava
É um olhar cantado, é um corpo preciso
É um brilho acuado, que me entrega o riso

Não é a parte que me faltava
É parte gente, parte paraíso e magia
É parte quente, parte amigo e moradia
É parte cura, par frequente e companhia
É partitura que abraça a melodia

Não é a parte que me faltava
Nasci inteirinha, nada me falta, não!
Mas é um todo que eu só achava
Em história bonita de retrato no cordão
Acho que ninguém mais acreditava
Ver Iemanjá chegar de carroça no sertão 

Fantoche de Verso




Acordo sentindo frio
Parece um ninho vazio
O olho demora a abrir
É a poesia querendo sair

Levanto e não leio jornal
Nem converso e coisa e tal
Tem roupa pra pendurar
É a poesia querendo entrar

Abro a porta e as gavetas
Penso em dragões e canetas
A varanda parece iluminar
É a poesia querendo ficar

Nada adoça esse café
Deve ser falta dum cafuné
Já começo a ensurdecer
É a poesia querendo querer

A reza eu esqueci de fazer
Hoje eu não vou botar pra ferver
Procuro coisa bonita pra ouvir
É a poesia querendo dormir

Me reviro e o sono não vem
Barulho da cama faz nhém
Vou levar meu corpo pro sol
É a poesia virando farol

Se chover eu vou querer molhar
Se é som eu vou querer cantar
A seca é maldita e pode castigar
Que eu sou poesia, e vou querer versar

Há Beleza



Com o tempo, e também com a falta dele, descobri que eu terminei por me tornar amiga de tudo aquilo que me cansava, como tivesse uma compaixão louca por tudo quanto é coisa que eu cheguei à conclusão simples de que é chata. É aperriante, sufocante, massacrante, tipo Kant. Não sei se é uma aceitação muito humana, ou se é acomodamento, ou se é esse apartamento… Não sei se é por pura preguiça de gritar, se é por falta de habilidade de bater…
Talvez seja por tudo isso. Talvez não. O fato é que eu percebi que, despercebidamente, eu sigo o clichê não muito famigerado de encontrar uma coisa boa no meio de um monte de coisa ruim e me agarrar à isso, como quem está num navio prestes a afundar e se gruda na parte mais alta que encontra. O navio vai afundar, esteja a pessoa onde estiver, corra pra onde correr. Porque, nesse caso, correr não adianta nada. Nadar sim.
Mas, eu acabo me afogando nesse mundo de ideias que me vêm à cabeça nas horas mais despretenciosas, como quando eu vou ali na padaria comprar um açúcar com uma nota de cem reais, só pra trocar o dinheiro; ou nas horas mais sacanas, quando aquele amigo precisa muito que eu volte toda minha atenção para o que ele está falando mas eu, à deriva, já to sendo visitada por essas ondas salgadas que, às vezes, não trazem lixo consigo. Nessa hora eu chego a pensar que eu sou aquela fraude da concha que tem “o barulho do mar”, e me arrisco a dizer que se alguém encostar o ouvido em mim, pode até escutar as ondas quebrando. Ou o meu estômago roncando. Talvez seja só fome.
De certo que ter um mar na cabeça nunca foi fácil, mas também nunca foi diferente. E, por pensar assim é que eu acabei ficando amiga das chatices dos outros e, por consequencia, das minhas também. Se eu não for amiga do mar, ele é chato. É água salgada, arde o olho, a onda me sacaneia, me gruda areia, a pele descasca. Mas, me amigando à ele é que eu o reconheço como parte integrante do mesmo universo que me gerou e, toda essa imensidão passa a ter uma irmandade quando eu me descubro parte daquela água. É a morte do eu. Sempre fomos e seremos nós e, ainda assim estaremos sozinhos, porque eu aprendi uma palavra nova que se encaixa à isso: aporia.
Mas, independente da minha manipulação do texto para usar a palavrinha nova, eu queria é dizer que hoje eu penso que somos a mesma coisa. Esse mar não poderia ser eu, porque somos nós. É natural que eu seja amiga dos mares, das espaçonaves, dos guarda-roupas, dos quebra-molas, das cebolas, dos vizinhos, dos retratos, dos beatos, dos portões, dos ladrões, do tempo, do vento, do acento, do coentro. E de tudo mais que seria chato, mas não é, porque eu aceitei como uma matéria variável do meu próprio ser.
E eu não sou chata. Eu sou muito legal. 

domingo, 11 de março de 2012

Visitante


"A liberdade, Sancho, não é um pedaço de pão."
Dom Quixote



Uma carruagem arruaceira
Trouxe para nossas terras uma história
Carnificada na vida de um menino
De sorriso gentil e filosofia simplória

Uma tecelagem feiticeira
Calou a nudez de um rapaz
Figurado não pelo que veste
Mas pelo bem que consigo traz

Aquela música festeira  
Chegou saudando o povo sofrido
Seu barulho era de alegria
Homem nenhum tapava o ouvido

Ao tocar a margem que o rio beira
O interior profundo das águas sentiu o carinho
Desse menino fantasiado de mistério
Que não esconde nada, a não ser o seu caminho

Leva seu tato não só às águas turvas
Mas também ao vento embolado
À terra judiada, ao fogo imaculado
E à menina desenhada em curvas

Larga um pouco de si por aí
Com o desapego silencioso
De quem de tanto ir e vir
Aprendeu a ser mais vagaroso

E a brincar com as injúrias do tempo
A saltar de ilha em ilha na memória
A cantar, mesmo na hora do lamento
E a viver derrubando divisórias

Sua biografia é bem viva e perene
Está escrita em pessoas e bençãos
Me despeço com um beijo na mão
Talvez eu te chova, talvez só serene

sábado, 10 de março de 2012

Não Dê Ideia Pra Dor


Presente de Wesley Faria pra mim, no momento e no compasso certo. Gratidão.

Por onde anda seu sorriso?
eu quero saber, quantas horas são,
quantas orações, vou ter que fazer.

por onde o seu passo anda?
por que que já não canta mais?
tanto faz, fogueira ou gás,

Levanta essa cabeça e anda,
Já disse o profeta,
você não é ninguém que iberna,
você é poeta.

Por onde anda seu sorriso?
eu quero saber, quantas horas são,
quantas orações, vou ter q fazer.

Por onde o seu passo anda?
por que que já não canta mais?
tanto faz, fogueira ou gás,

Se ergue a clava forte,
nem mesmo a morte, te oferece dor,
A pena o teu livro-escudo,
Que defende tudo, sem nenhum ardor.

Levanta essa cabeça e anda,
Já disse o profeta,
você não é ninguém que iberna,
você é poeta.

Sem Borracha

Com Wesley Faria 


Não tem amanhã
A vida fica urgente
Não dá tempo de passar a limpo
O esboço da gente
E o que a gente sente
É pra ontem eternamente

Não esqueci de dizer que eu te amo
Não deixei nada pro próximo ano
Não guardei meu choro debaixo dos panos
Não impedi nossos risos
Nem quis meus cabelos lisos

As noites em claro ao telefone
Não foram noites perdidas
Te escutar foi meu travesseiro
E os segredos assumidos
(Olhando pro lado)
Não me deixaram despida
Me escutar foi seu dom faceiro

Tudo isso, cravado aqui na pele
Não doeu e nem feriria
Me faço de papel o resto da vida
Só pra ser o original da sua poesia

Poesia que vem e passa
Mas passa a limpo toda a graça
Cola na janela do peito um retrato
Que diz dia e noite, "vem logo, 
que já começou o primeiro ato"
Vida sem pressa
É o que me interessa

Termina no Ar

Com Wesley Faria

Ao fim de toda aquela rima
E ao fim de todo esse faltar
Só vão restar as nossas músicas
Que nem nossas histórias vão contar

Vim perguntar pro sal do mar
Que mais ele fez além de te temperar
Sem te salgar, nem te amarrar
Sem te deixar, nem desmanchar
Que foi que ele fez pra ser seu par
Sem deixar de ser mar
Sem saber dissertar nada do seu sertão

Pedi ao mar
Que me emprestasse uma onda
Olha, eu já sei me quebrar!
Mas ele só empresta onda
Pra quem se inunda sem afogar

Eu contei que já até transbordei
E ele pediu pra esperar
Que assim que a maré baixar
Ele me apresenta Iemanjá
Diz que ela quem vai me ensinar
A cantar sobre nós dois
Que só com canto a gente se desliga
Do depois

Odoya, Iemanja nem viu
Quando a onda te despiu
Levou todo o mau que um dia existiu

Lavou amor e fé
Devolveu a terra para a sola do seu pé
E disse "vai que seu lugar é no chão"
Senhora das Candeias não sabia
Que o chão é todo o canto,
Mesmo por baixo
Do manto da água imensa do mar,
Por onde as sereias se atrevem a cantar

Odoya, Iemanjá, sempre aqui na beira-d'água,
Feito preta que espera o pescador,
Espero sentada
Escrevendo um verso encantada,
Enquanto não vem meu amor

Redemoinhos

Com Wesley Faria

Se deite na rede
Quando tiver muito caminho
Nas pedras da vida
Quando o remédio não arder
Pra sarar a ferida
Quando o olho insistir em abrir
Sempre que a alma ficar dormida
Se deite na rede
Quando sua escola não ganhar
Quando seu carnaval acabar
Quando a banda parar de tocar
Quando for hora de desfantasiar
Se deite na rede
Peça que o ar se corra
Pra aliviar seu suor
Peça que se gele a loura
Pra degustar tudo melhor
Escute aquela música boa
Pra se embalar sem dar nó
Se deite na rede
Se molhe na sede
Se vede no verde
Se beije e se enfeite
Só pra você ser seu
Só até ano que vem

Só até o fim dos nossos dias
Só até virarmos poesias

Vinho, Lã, Violão



Deixou a blusa
Mas eu queria o peito;
Os braços, a mão.
E escorrega
Mas eu queria grudar,
Ao menos adesivar;
Abotoar.
Ficou o cheiro,
Mas eu queria o paladar,
A barba, o chapéu;
Abraçar.
Queria te fazer de blusa,
Ser fronha pro seu peito,
Seu tórax-travesseiro.
Deixou a blusa
E fez dela um laço, amuleto.
Fez dela a palma
Que me aquece a mão
Ao consentir uma oração.
Ela é minha benção da noite,
É meu espreguiçar da manhã,
É o meu ninar no escuro
Que procede o sonho estranho.
Ela é isso tudo,
E se eu não me engano
Era só um pano.

Rotina Cretina



Seu Clotidiano
Tá me odiando
Passo por ele sem dar bom dia
Digo que vou pro quarto,
Mas ele já sabia

“Ô Seu Clotidiano,
Tem muita gente entrando!
Desse jeito o elevador inguiça!”
E Seu Clotidiano nem pisca.

Esse elevador é meio cigano
Eleva também nosso desengano
Tá subindo, e eu quero é descer
Mas mesmo assim eu entro,
Sei lá por quê!

É muita gente junta
Minha mente tá na janta
Só sei que faz calor
E num tá nem perto do almoço,
Meu Senhor!

Será que se eu puxar assunto
Seu cotidiano vai ser bruto
Ou vai sorrir e dar espaço?
E se ele não ouvir,
Que é que eu faço?
E se ele não rir, nem der abraço?

Seu Clotidiano vai pra cima,
E volta pra baixo.
Anda sempre verticalizado.

O peso dessa gente
Que anda e eleva a dor
É só o dia a dia
Do cotidiano desse trabalhador.

Lençóis Esquecidos




Até o mar aberto fica à margem
Se ele se abrir na sua frente todo dia.
Vira mendigo, um pedinte, esquecido.
Já foi seu abrigo, seu ouvinte, falecido.

O sol se põe, lindo, todo dia
É nosso presente diariamente
Você nem pára pra aplaudir
Mais um mendigo a te pedir.

Corpos estão dispostos na sala,
Assistindo televisão
E pedindo um abraço urgente.
Você sai sem nem tomar a benção.
Viraram mendigos,
Seus pais e toda sua gente.

Você passa ali todo dia,
E o que era pra se fixar
Virou mendigo, quem diria!
O dia a dia tratou de apagar.

Não tem mais valor
Os versos se perdem, viram decoração
O sol vira calor e reclamação
A família? “Não pedir pra nascer, não!”
Ao som de mães de mãos juntas,
Entoando oração.

A poesia disposta todos os dias
Nos mesmos lugares daqui,
Só é percebida uma vez na vida
Por aquele que nunca passou ali.

Alma de Fada

Para a amiga Cacau de Souza
Cacau
Com a calma da temperatura
Que seca lenços no varal,
Antes lagrimados de secura…

Princesa cigana enfeitada com fita
Faz nascer no imaginário da vida real
A candura simples de espantar o banal
No feitiço da dança da moça bonita

O abrir de um livro foi seu parto
Dando início ao conto onde ela é a fada
Fez um portal na janela de seu quarto
Onde bate suas asas e voa desacordada

Será notada em todo reino que chegar,
Pelo veludo de sua voz macia.
É recebida como motivo de romaria
Pelo povo criado em seu próprio olhar

Ela vive o que vê
E escolheu ver a fantasia
Sua vida se veste e se enfeita
Para bailar com aroma de maresia

Suas raízes não a prendem
Justamente porque se estendem
Ao redor de tudo quanto é solo
“Não pousa seu pé no chão”, eu imploro

O rodar da sua saia vermelha
Parece ter firmado acordo com o vento
Que faz rebuliço na sua cabeleira
E tudo vira cena em ritmo lento

Amo a fada sonhadora
Que chegou trazendo magia
Almofada acolhedora
Acalanto de sofá e poesia

Estar São

Com Fael Abranchez
Abraços mudos e demorados
Fazem da respiração uma conversa
Sintonizada longe de qualquer pressa
Ainda que estejamos atrasados

Laço humano que emudece a preocupação
Não quero ser quem vai largar primeiro
Tomara que dure mais que um fevereiro
Que, com verdade, abraço é uma oração

E, se quem sorri reza três vezes
Quem abraça assim vive a meditação
Do estado contemplativo temperado
Pelo sabor inspirado de uma canção

Quando chegar seu outono
Seja a estação que for
Cochile, caso tenha sono
Primavere, se quiser ter flor

Se inverne se quiser usar lareira
Não se inferne só por ser segunda-feira
Veraneie a alegria do amarelo
Faça dessas folhas secas, seu castelo

Pré-Velório

Para Wesley Faria 
Por Guido Perón

Hoje a vida vai até a hora que quiser
Eu nunca tive relógio, nem chofer
Hoje eu só sei que vai amanhecer
E, no mais, hoje eu sei que eu vou morrer

Me levanto como a donzela no dia do casamento,
Pego um copo generoso de café e esquento
Hoje eu quero queimar essa língua minha
Pra servi-la assada, mais tarde, pra formiguinha

Hoje eu vou tomar um banho demorado
Aproveitando que eu tô bem humorado,
Bem do jeito que a garganta gosta,
Eu vou cantar como quem ganhou aposta

Vou molhado para o quintal
E faço do sol a minha toalha
Sinto o cheiro da roupa limpa no varal,
Sorrio e saio pronto pra perder uma batalha

Hoje eu vou usar minha velha fantasia
De Homem-Aranha hippie e hipertenso
A vizinha ri de mim e eu ganho o dia
O sorriso mete medo no bom senso

Ai, que vontade de pular nessa fonte!
Uma baita vontade de aplaudir o horizonte!
Ai, como eu queria beijar essa moça…
Uma baita preguiça de carregar bolsa…

De novo o sol me serve de toalha
Valeram as palmas pro astro da minha vista
Consegui o telefone da Natália
À tiracolo, só minha alma bem quista

É hoje que eu paro de respirar
Eu não tenho mais nada pra anotar
Faço na hora tudo que eu não quero esquecer
Porque todo dia é hoje, e hoje eu sei que vou morrer

Sala de Estar


Eu hoje vi um sofá
Que tava no rio a boiá
Pensei “Oxe, eu vou ajudá!”
Corri pra casa sem pensá

Fiz uma baita catança
Rapelei tudo os cômodo meu
Peguei a TV das criança
Elas chorava, parece até que doeu

Ah, mas eu tarra é com pressa!
Passei a mão numas almofada,
E tudo mais que me interessa.
As peixinha vão ficar retada!

Tornei a passar pelo rio bonito
E derramei tudo as coisa lá
E teve gente que achou esquisito
Mas os peixe agora tem sala de está!

Um Mundo de Faíscas

Para o amigo Giglio
Por Guido Perón

Garantindo meu direito à entorpecência
Quando exerço a mais sabida paciência
Enquanto cuspo fogo e poesia
Na mais draconiana boemia

Essa chama que salta de mim em tempo verbal
Consegue fazer rir e chorar com a notícia
Repousadamente morta nesse lenço de jornal
Em desumanidade que parece fictícia

Às vezes o que se queria, simplesmente
Era que cessasse a lenha podre e alimentadora
Dessa fogueira de cansaço evidente
Que, de tão forte, arrasaria qualquer lavoura

E, incrivelmente belo e com pureza
Seja qual for o fim dessa chama
Ela é sempre fiel à sua natureza
Deveras me queima só porque me ama

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Natália, a Batata Palha



Meu prato hoje tá em pânico!
Chega a tropa industrializada
Contra meu soldado orgânico
Arroz, batata palha e salada.
Daqui eu vejo uma trincheira
De arroz branco bem refinado,
Natália, a batata palha traiçoeira
Prepara armamento pesado.
Fuzis carboidráticos abastecidos
De gordura trans, homo e hetero.
Eu me pego tapando os ouvidos
E a batata atirou sem esmero…
Acertou o meu melhor quiabo!
As taiobas são bobas,
Mas ficaram revoltadas!
As acelgas, cegas de amor,
Estão desconsoladas!
As couves já chamaram o coveiro,
Elas estão refogadas!
As chiques chicórias com suas memórias,
Estão amarrotadas!
Até a ridícula rúcula,
Estava sensibilizada!
Quiabo, logo o quiabo…
Que abotoa os passos da dança
Entre a saliva e o seu escorregar…
Diabo, logo o quiabo?!
Que patina na panela fina
Na leveza de uma bailarina…
A tropa verde tava encasquetada,
E seguindo o conselho do nabo
(Inimigo nada bobo da batata),
Lançaram mão da graúda granada!
A batata quase perdeu a palha
O arroz não entendia mais nada!
No fim todos viraram migalha
Na boca de molares-navalha
Que gargalha a cada mastigada
E engole essa guerra salivada
Só pra não engolir seco
Só pra não engolir sapo

Se cai uma agulha
O palheiro é paliativo
Se acalma a gula
O cheiro vira crivo 

Desponta



Reticências são meu vício
Assim como a procrastinação diária
Bem como é vício a expectativa
Minhas histórias com três pontos

Manhãs de preguicências
Tudo que o pé almeja
É se esfregar nas bolinhas do lençol
E não saber se vai dar sol

Noites de esperancências
Tudo que a cabeça peleja
É possuir teto de estrelas
E a lua ainda dá trela

Madrugadas de sonolecências
Onde o silêncio é a base
Da melodia de sons curiosos
Que o acaso da natureza compõe

Um ponto é um círculo
E círculo é eterno
Não teve tiro de largada
Não acha a linha da chegada

Tres pontos é o sinal
De que o sem-fim de caminhada
Não é solitário a um ponto
Já que…

Pão Nosso



Ao invés
De ensinar ao meu filho
Que faça uma reza no almoço
E que jogar comida fora é
Pecado
Hei de sugerir a ele
A ideia de que colocar no prato
Quantidade suficiente para
Se saciar
É o maior ato de oração
Em agradecimento divino
Que se possa fazer de fato
Ao invés de lançar palavras para fora
Da boca
Pedindo a benção pelo sustento
Que está à mesa
Torcendo para que o volume de voz
Ou do sussurro
Acerte
Os decibéis necessários aos ouvidos
De deus
Hei de sugerir, ainda, que
Não há no mundo maior ato de oração
Em cumprimento do
Amor ao próximo
Do que respeitar a crença
Do irmão que sacia
Com a reza que antecede o
Paladar
E com o repúdio
À sobra de comida no
Prato
Se, de tudo, meu filho escolher
Concordar com a missa
Farei silêncio e fecharei os olhos
Enquanto ele junta
As mãos
E entoa uma reza
Amem, amém.

Roma

Por Pedro Lorenzo e Deia Pereira


De mãos dadas no caminho
Que é o contrário da ida
Levantamos a suspeita
De que o amor seja mão única

Na antemão dos fatos
Contrariamos as suspeitas
Levantamos desejos
Disfarçamos anseios

Que seria o contrário de qualquer sentimento
Além de sua simples ausência?
Talvez por uma distração de conceitos
A isso se batizou por indiferença

Na contradição dos atos
Contrariamos as receitas
A indiferença é o que sentimos
Daquilo que não se sente?
Ou o desejo atravessa barreiras
E retira o véu que nos prende?

Qual a receita para toda a química?
Qual a fórmula que se perde nessa rua sem saída?
E o que se porta como o avesso do voilá da receita?

Se o amor está pronto
Seria a solidão dos ingredientes
Dispostos como um final
Que é possível mas não está terminado
Seria esse o contrário do amor?
O que ainda é cru?

Um olhar ou um toque sutil
São os sonhos ou as esperanças
A vontade do querer
O antagonismo entre dois pontos
Que separa a esperança

E a rebeldia de três pontos
Indicam que no fim da rua sem saída
Tem estrada de chão
Que é o contrário do asfalto
Mas não parece contramão
Não tem placas, o mato tá alto
Mas é continuação

E com o parecer de fatos opostos
Sem lugar nem direção
Surge a esperança de se reencontrar
E seguir num mesmo caminhar
Mesmo que em alguns momentos
Se transformem em antagônicos

E o amor se perde no ódio
Porém o ciclo sempre se reencontra
Levantando uma nova esperança
Deixando no ar uma pergunta
Qual o contrário do amor
Se o ódio também nos aproxima?

Singelo


Há um elo, um elo há
Com candura, um elo é
Outra alegria, um evoé
Doce som de um oboé
Trançando puras melodias
No elo das disritmias
Na rima e no ritmo das vias
De versos perversos e inversos
Corpos perenes imersos
Na eterna banheira poética
Com o vermelho do corte
Ou das pétalas que boiam
Qual é o elo entre o mergulho
E a água
Que se difere do elo entre a água
E os pulmões?
Apenas uma argola sustenta
Tudo que é linear
É tudo um elo
Mira al cielo
É como um zero
Que liga o positivo ao negativo
Sem nada ser, sem volume
Sem começo como Serafim
Um senhor meio amarelo
Que anda há mais de milhões de panos
Porque se percebeu parte do anelo
Que ainda que seja rompido
Sempre terá existido